Grazie Flavio Galvan al testo in italiano * Remercier Susana Metello le texte français



segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Minha boca não se atreve

Não se atreve a minha boca

Que eu não a deixo atrever

A dizer que eu ando louca

Que ando louca por te ver

*

Não se atreve a minha boca

Ao grito que eu quero dar

Não se atreve a minha boca

Que eu não a deixo gritar

*

Minha boca não se atreve

Não segue o meu coração

E não diz o que não deve

É a minha expiação

*

Minha boca não se atreve

A dizer o que lhe digo

Se ela se atrever em breve

Sabes que sonho contigo

*

Ai minha boca atrevida

Já mo disseste a mim

E encheste a minha vida

Desse segredo ruim


Minha mãe

João Linhares Barbosa

Franklin Godinho

*

Minha mãe, ó minha mãe

Abre-me o teu coração

Deixa encostar-me ao teu peito

Eu não tenho mais ninguém

Quero pedir-te perdão

Pelo mal que tenho feito

*

Foi ele, eu gostava dele

Uma tentação constante

A minha noite, o meu dia

Ninguém mais belo do que ele

Meu respirar ofegante

Água pura que eu bebia

*

O mundo será dos dois

Disse, sorrio-me, sorri

Foi-se embora satisfeito

Vi-o com outra depois

Logo uma brasa senti

Queimar-me dentro do peito

*

Desmaiei, tornei a mim

Ainda o vi dar um beijo

Na boca dessa mulher

Ó minha mãe, foi assim

Mas vou ver se ainda o vejo

A ver se ele ‘inda me quer


Morrinha

Amália Rodrigues
Carlos Gonçalves

*
Ai sonhos, prantos, rios, vosso corpo
De lírio e hortelã agreste
São sonho que morre
São água que corre
Que da minha sede
Bebeste
*
Na minha cama há um lençol de linho
Que hoje é como eu, sozinho
A sua brancura
E a minha ternura
São minha loucura
Meu espinho
*
Na minha solidão que é toda minha
Na minha solidão sozinha
Tristeza em botão
Que eu guardo na mão
Crescendo, crescendo
Morrinha

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Na esquina de ver-o-mar

Luís Macedo

Alain Oulman

*

Foi no Outeiro da Graça

Na esquina de ver-o-mar

Quanto é triste essa desgraça

Que finge alegria e passa

Pelas ruas a cantar

*

Foi no Outeiro d’Ajuda

Na esquina de ver o Tejo

Quem é triste não se iluda

Que essa tristeza não muda

Mesmo que mude o desejo

*

Foi no Outeiro do Céu

Ao olhar o mar e o rio

Que uma noite aconteceu

Que o sonho que era só meu

Passou por mim, mas perdi-o


Não é tarde

Leonel Neves

António Mestre

*

Quem acha o seu bem amado

Devia não ter sofrido

Nem sua vida ter sido

Mais um motivo de Fado

*

O meu amor verdadeiro

Achou-me desiludida

O grande amor duma vida

Devia ser o primeiro

*

Refrão

*

Ai não me digam que é tarde

Chegou ele, é o que importa

O meu passado é que arde

Renasce a esperança já morta

Sou tal qual uma guitarra

A um cantinho esquecida

Quando ele vem e me agarra

É que eu me sinto com vida

*

E não me viu quando eu era

Menina de horas quietas

De laços e tranças pretas

E o coração puro à espera

*

Ele também não me via

Também ele era menino

Também bebia o destino

Sem saber o que bebia

Não quero amar

José Ferreira da Costa

Armando Quatorze

*

Oferece o teu amor

A quem te possa amar

A minha boca é fria

Não tem alegria

Nem mesmo a cantar

*

Na cruz da tua vida

Não quero mais sofrer

Não quero ser vencida

Nem mulher perdida

Por tanto te querer

*

Não queiras no peito esta flor

Sem perfume e sem cor

Que não sabe enfeitar

Não queiras a esmola do amor

De quem não sabe dar

Amantes, não quero, não quero

Só este me pode agradar

É belo e castiço o meu Fado

O amante sem par

*

É ele que me beija

É ele que me abraça

Nas noites de luar

Se fico a pensar

Na vida que passa

*

E passa a vida inteira

Saudade e amargor

Ao longe uma toada

Canta a madrugada

E és tu meu amor

Naufrágio

Cecília Meireles
Alain Oulman
*
Pus o meu sonho num navio
E o navio em cima do mar
Depois abri o mar com as mãos
Para o meu sonho naufragar
*
Minhas mãos ainda estão molhadas
Do azul das ondas entreabertas
E a cor que escorre nos meus dedos
Colore as areias desertas
*
O vento vem, vindo de longe
A noite se curva de frio
Debaixo da água vai morrendo
Meu sonho dentro do navio
*
Chorarei quando for preciso
Para fazer com que o mar cresça
E o meu navio chegue ao fundo
E o meu sonho desapareça

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Nega maluca

Fernando Lobo

Evaldo Rui

*

Tava jogando sinuca

Uma nega maluca me apareceu

Vinha com um filho no colo

E dizia p'ro povo que o filho era meu

Não sinhô

*

Tome que o filho é seu

Não sinhô

Guarde o que Deus lhe deu

Não sinhô

*

Há tanta gente no mundo

Mas meu azar é profundo

Veja você, meu irmão

A bomba estourou na minha mão

*

Tudo acontece comigo

Eu, que nem sou do amor

Até parece castigo

Ou então influência da cor

Nem às paredes confesso

Max

Artur Ribeiro

Ferrer Trindade

*

Não queiras gostar de mim
Sem que eu te peça,
Nem me dês nada que ao fim
Eu não mereça
Vê se me deitas depois
Culpas no rosto
Isto é sincero
Porque não quero
Dar-te um desgosto

*

Refrão

*
De quem eu gosto
Nem às paredes confesso
E até aposto
Que não gosto de ninguém
Podes sorrir
Podes mentir
Podes chorar também
De quem eu gosto
Nem às paredes confesso

*

Quem sabe se te esqueci
Ou se te quero
Quem sabe até se é por ti
Por quem eu espero
Se eu gosto ou não afinal
Isso é comigo,
Mesmo que penses
Que me convences
Nada te digo

Ni la sota ni el caballo ( El rey con su corona )




No me tires indiré

José Palma

Ramón Perelló

Genaro Monreal Lacosta

*

Cuando ar mundo mi persona se asomó

En Jeré de la Frontera onde nasi

Me encontré com estas manos p’haser parmas

Esta cara y dos pinrreles p’a bailar er garrotin

*

Mu poquito, mu poquito

Una cosa que no es ná

Pero muchas la quisiera

Que tiren pá onde quieran que Dios no se la da

*

No me tires indiré, no me tires indiré

Que la cosa está tan clara como el sol

Ay olé, ay olé, ay olé

Se estoy majareta tu estás más que yo

*

No me tires indiré, no me tires indiré

Porque estoy yo muy jartita ya de ti

Ay olé, ay olé, ay olé

Que tienes la cara como un alcauci

*

Ay que te corten la vena del sueño

Los pies por er bigote y er cuello po los pies

No me tires indiré, que tu cuento s’acabao

Colorin, colorin. Colorao

*

Cuando a mi me bautizaron sucedió

Lo que nunca volverá ya a suceder

Que el aguita andaba escasa por entonces

Y la pila la llenaron com vinillo de Jeré

*

Ay mira primo, mira primo

Mira se seré cabal que por libro de registro

Pusieron p’ apuntar-me la capa er sacristán

*

No me tires indiré, no me tires indiré…


Noite de Santo António ( Grande Marcha de Lisboa 1950 )

Norberto Araújo

Raul Ferrão

*

Cá vai a marcha mais o meu par

Se o não trouxesse quem o havia de aturar

Não me digas sim, não me digas não

Negócios de amor, são sempre o que são

*

Já não há praça dos bailaricos

Tronos de luz, num altar de manjericos

Mas sem a Praça que foi da Figueira

A gente cá vai, quer queira ou não queira

*

Ó noite de Santo António

Ó Lisboa de encantar

De alcachofras a florir

De foguetes a estoirar

Enquanto os bairros cantarem

Enquanto houver arraias

Enquanto houver Santo António

Lisboa não morre mais

*

Lisboa é sempre namoradeira

Tantos derriços, que até já fazem fileira

Não me digas sim, não me digas não

Amar é destino, cantar é condão

*

Uma cantiga, uma aguarela

Um cravo aberto, debruçado da janela

Lisboa linda, do meu bairro antigo

Dá-me o teu bracinho, vem bailar comigo


Nome de rua

David Mourão-Ferreira

Alain Oulman

*

Deste-me um nome de rua

Duma rua de Lisboa

Muito mais nome de rua

Do que nome de pessoa

Um desses nomes de rua

Que são nomes de canoa

*

Nome de rua quieta

Onde à noite ninguém passa

Onde o ciúme é uma seta

Onde o amor é uma taça

Nome de rua secreta

Onde à noite ninguém passa

Onde a sombra do poeta

De repente nos abraça

*

Com um pouco de amargura

Com muito da Madragoa

Com a ruga de quem procura

E o riso de quem perdoa

Deste-me um nome de rua

Duma rua de Lisboa


Nós as meninhas

Pêro de Viviãez

Alain Oulman

*

Pois nossas madres van a San Simon

De Val de Prados candeas queimar

Nós, as meninhas, ponhemos de andar

Con nossas madres e elas enton

E elas enton e elas enton

Queimen candeas, por nós e por si

E nós meninhas e nós meninhas

Bailaremos i

*

Nossos amigos todos lá irán

Por nos veer e andaremos nós

Bailando ante eles, fremosas en cós

E nossas madres, pois que alá van

Pois que alá van, pois que alá van

Queimen candeias por nós e por si

E nós meninhas e nós meninhas

Bailaremos i

*

Nossos amigos irán por cousir

Como bailamos e podem veer

Bailar moças de bon parecer

E nossas madres pois lá queren ir

Lá queren ir, lá querem ir

Queimen candeas por nós e por si

E nós meninhas e nós meninhas

Bailaremos i


Nós atrás das moças

Nós atrás das moças,

Elas aos saltinhos

Nós atrás das moças,

Elas aos saltinhos

Ai Jesus, que eu já não posso,

Com tantos carinhos

Ai Jesus, que eu já não posso,

Com tantos carinhos

*

Dançai raparigas

Dançai ó formosas

Dançai raparigas

Dançai ó formosas

Oh que linda é esta roda

De botões de rosas

Oh que linda é esta roda

De botões de rosas

Nostalgia ( É noite na Mouraria )

António Mestre

José Maria Rodrigues

*

Uma guitarra baixinho

Numa viela sombria

Entoa um fado velhinho

É noite na Mouraria

Apita um barco no Tejo

Na rua passa um rufia

Em cada boca há um beijo

É noite na Mouraria

*

Tudo é Fado

Tudo é vida

Tudo é amor sem guarida

Dor, sentimento, alegria

Tudo é Fado

Tudo é sorte

Retalhos de vida e morte

É noite na Mouraria

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O carapau e a sardinha

António Avelar Pinho

Nuno Rodrigues

*

De uma sardinha fresquinha

Diga-me lá, quem não gosta?

Salpicadinha

Viva da costa

Assim fresquinha

Chegadinha de Cascais

Prateadinha

De comer, chorar por mais

*

Quem é que não gosta?

Quem é que não gosta?

De uma sardinha

Salpicadinha da costa

*

Quem é que não gosta?

Quem é que não gosta?

De uma sardinha

Salpicadinha da costa

*

Quando se ouve o pregão

Vê-se logo a mesa posta

Comer à mão

Como se gosta

*

Muito gordinha

No pão saloio a pingar

Uma “buchinha”

P’ra sardinha não queimar

*

Quem é que não gosta?

Quem é que não gosta?

De uma sardinha

Salpicadinha da costa

*

Quem é que não gosta?

Quem é que não gosta?

De uma sardinha

Salpicadinha da costa

*

Juntei uma petinguinha

Com um lindo “jaquinzinho”

Ela assadinha

Ele fritinho

O casamento

Naquele dia se fez

Foi o padrinho

O “verdinho” português

*

Quem é que não gosta?

Quem é que não gosta?

De uma sardinha

Salpicadinha da costa

*

Quem é que não gosta?

Quem é que não gosta?

De uma sardinha

Salpicadinha da costa

*

O carapau e a sardinha

Qual é o mais popular?

É a sardinha

Não há que errar

*

Dos “jaquinzinhos”

Bem fritinhos, gosto eu

Mas a sardinha

É um petisco do céu

*

Quem é que não gosta?...

O cochicho

Lino Ferreira

Lourenço Rodrigues

Fernando Santos

Raul Ferrão

*

Na noite de São João refilão

Ninguém quer calar o bico

Com o cochicho na mão, pois então

E um vaso de manjerico

*

Passa a Marcha a filambó trolaró

Com archotes e balões

Entre apertões, aos encontrões

A dançar o solidó

Batem mais os corações

*

Olha o cochicho

Que se farta de apitar

Ri pi pi pi pi pi pi

E nunca mais desafina

É rapaziada

Quem é que quer assoprar

Ri pi pi pi pi pi pi

No cochicho da menina

*

Um papo seco liru, gabiru

Por maldade ou por capricho

Ao ver-me na rua só, o pato

Quis agarrar-me o cochicho

*

Mas quando um soco lambeu

O judeu

Até gritou pela mãe

E sem parar, pôs-se a cavar

O cochicho é muito meu

Não o dou a mais ninguém