Amália Rodrigues
Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012
Fado Hilário
Que sina desventurada
Me criou só para a dor
Cada ventura sonhada
É desventura maior
Quantos caminhos cruzados,
Ó vida terei que andar!
Meus olhos já estão cansados,
Doutros olhos procurar
Já não posso ser contente
Trago a esperança perdida
Ando perdido entre a gente
Não morro, nem tenho vida
Sábado, 25 de Fevereiro de 2012
Fado Lisboeta
Amadeu do Vale e Carlos Dias
Não queiram mal a quem canta
Quando uma garganta
Em ais se desgarra
E a mágoa já não é tanta
Se a confessar à guitarra
Quem canta sempre se ausenta
Da hora cinzenta da sua amargura
Não sente a cruz tão pesada
Na longa estrada da desventura
Refrão
Eu só entendo o fado
Plangente amargurado,
À noite a soluçar baixinho
Que chega ao coração
Num tom magoado
Tão frio como as neves do caminho
Que chora uma saudade
Ou canta ansiedade
De quem tem por amor chorado
Dirão que isto é fatal, é natural
Mas é lisboeta
Isto é que é o fado
Oiço guitarras vibrando
E vozes cantando
Na rua sombria
As luzes vão se apagando
A anunciar que é já dia
Fecho em silêncio a janela,
Já se ouvem na viela
Rumores de ternura
Surge a manhã fresca e calma
Só em minh'alma é noite escura
Refrão
Eu so entendo o fado
Plangente amargurado...
Fado Madragoa
Autores:
João Bastos e Frederico Valério
Uma saudade do mar, tem
Seu monumento em Lisboa
Velho bairro popular
Sombrio e vulgar
Que é a Madragoa
E reza a história que foi, lá
Numa noite de Natal
Que veio a luz o primeiro
Herói marinheiro
Que honrou Portugal
Ó triste Madragoa
Tens a esperança e nada mais
Há tanta coisa boa
Noutros bairros, teus rivais
Ó pobre Madragoa,
Não tens um só painel
Um arco ou um brazão
Só tens ó Madragoa
Nos lábios doce mel
No peito o coração
A noite cai, e o luar vem
Dar-lhe a triste cor da opala
E as estrelas a brilhar
Parecem baixar
Do céu para beijá-la
A Madragoa a dormir tem
Como prémio ao seu labor
Lindos sonhos de princesa
De eterna beleza
De sonhos de amor
Fado Malhoa
José Galhardo e Frederico Valério
Alguém,
Que Deus já lá tem
Pintor consagrado
Que foi bem grande
E nos dói
Já ser do passado
Pintou numa tela
Com arte e com vida
A trova mais bela
Da terra mais querida
Subiu,
A um quarto que viu
À luz do petróleo
E fez o mais Português
Dos quadros a óleo
O Zé de Samarra
Com a amante a seu lado
Com os dedos agarra
Percorre a guitarra
E ali vê-se o fado
Faz rir
A ideia de ouvir
Com os olhos, senhores
Fará, mas não p'ra quem já
Ouviu, mas em cores
Há vozes d'Alfama
Naquela pintura
E a banza derrama
Canções de amargura
Dali vos digo que ouvi
A voz que se esmera
Boçal do Faia banal
Cantando a Severa
Aquilo é bairrista
Aquilo é Lisboa
Boémia e fadista
Aquilo é de artista
Aquilo é Malhoa
Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012
Fado Marujo (Marujo Português)
Linhares Barbosa e Artur Ribeiro
Quando ele passa,
O marujo português
Não anda, passa a bailar,
Como ao sabor das marés
E quando se jinga,
Põe tal jeito, faz tal proa
Só para que se não distinga
Se é corpo humano ou canoa
Chega a Lisboa,
Salta do barco e num salto
Vai parar à Madragoa
Ou então ao Bairro Alto
Entra em Alfama
E faz de Alfama o convés
Há sempre um Vasco da Gama
Num marujo portugués
Quando ele passa
Com seu alcache vistoso
Tráz sempre pedras de sal
No olhar malicioso
Põe com malicia
A sua boina maruja
Mas se inventa uma carícia,
Não há mulher que lhe fuja
Uma madeixa
De cabelo descomposta
Pode até ser a fateixa
De que uma varina gosta
Quando ele passa
O marujo português
Passa o mar numa ameaça
De carinhosas marés
Fado Mayer
Linhares Barbosa e Armandinho
Foi mau, não minto
Falso, ruím, vil ecruel
Mas não consinto
Que ao pé de mim,
Digas mal dele
Tu és banal,
Não se perdoa, não é decente
Dizer-se mal
Duma pessoa que está ausente
Refrão
Não, não tolero
E não quero
Trazer de novo á cena
Dôr que ainda me dói,
Não foi nada contigo
Não, não tolero
A não ser que tenhas pena
De não ser como ele foi,
Para meu maior castigo
Tudo ruíu
Como um castelo
Feito na areia
Deves ter brio
E não trazê-lo à minha ideia
Agora é tarde para censuras,
Sabe-lo bem
Que Deus o guarde
De desventuras
E a nós também
Fado meu
Carlos Neves e António Mestre
Cantar é o meu fado verdadeiro
Com mágoas ou amor no coração
Sou como o mar selvagem ou fagueiro
Mas sempre entoar uma canção
Do vento que conduz a gente aos portos
Das sereias a chamar
E dos marinheiros mortos
Ai, quantos desejos mortos
Canto eu e canta o mar
É fado meu, já não sou eu
Se canto o fado de outra vida
É meu aquele pranto
É minha a dor que canto
É fado meu, já não sou eu
E a minha voz no fado erguida
Dá-me a alma e modos
De irmã de todos
Que a dor perdeu
Fado nocturno
Feijó Teixeira e Amadeu Rami
(Fado Zé Negro)
Rodam as quatro estações
Dá lugar o sol à lua
Cai a noite sem pregões
E nós ficamos na rua
A escutar dois corações
Que dizem que vou ser tua!
Podes dizer-me um adeus
E olhar-me com desdém
Que eu sei que não serás meu
Só quero que todo o bem
Que agora mesmo morreu
Não o dês a mais ninguém
Cegam as luzes perdidas
Que se escondem pela cidade
Horas mortas, já vencidas
Doem-me as dores da saudade
E das saudades fingidas
De quem finge ter saudades.
Fado Português
José Régio e Alain Oulman
O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que estando triste, cantava
que estando triste, cantava
Ai, que lindeza tamanha,
meu chão , meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de ouro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro
Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada
Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura
Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro veleiro
velava outro marinheiro
que estando triste, cantava,
que estando triste, cantava
Fado Xuxu ( Fado Carioca)
Amadeu do Vale
e
Frederico Valério
O fado, canção bizarra
Pôs a samarra
Todo trecheiro
E lá foi com a guitarra
Até ao Rio de Janeiro
Fez-se um fadista atrevido
Tão destemido
E de tal marca
Que até já é conhecido
P'lo fadistão da Fuzarca
Com sambinhas
E modinhas
Abacate
Vitamate
Guaraná
Maracujá
E caruru
Com cocada
Batucada
Para ti
Abacaxi
E goiabada
O fado é bom p'ra xuxu
Portuguesinho de raça
Bebe cachaça
Come pipoca
E no catete até passa
Por cidadão carioca
Às vezes vai à favela
Calça chinela
Todo se bamba...
E o fado canção singela
Agora é todo do samba
Faia (Fado Faia)
Música: Martinho d'Assunção
Vieram dizer-me há pouco
Que andavas louco
Por certa dama
Muito nobre, muito bela
Ias com ela
Ali p'ra Alfama
Não adivinho quem seja
Nem tenho inveja
Mas dá nas vistas
Que uma senhora tão chique
Cante ao despique
Com as fadistas
Refrão
Esses becos e travessas
Não são p'ra essas
Senhoras finas
Alfama é das cantadeiras
Das costureiras
E das varinas
Se é só para te agradar
Que anda a cantar
Diz-lhe que não
Que não cometa o pecado
De usar o Fado
Como brasão
A guitarra nos teus dedos
Tem mil bruxedos
E faz feitiço
A ela todas se prendem
Todas se rendem
Sem dar por isso
Se foi a tua guitarra
Bruxa e bizarra
Que ao Fado a trouxe
Que seja muito feliz
Já que Deus quiz
Que eu o não fosse
Fallaste Corazón
Y tú que te creías
el rey de todo el mundo;
y tú que nunca fuiste
capaz de perdonar
y cruel y despiadado
de todo te reías,
hoy imploras cariño
aunque sea por piedad.
A dónde está tu orgullo,
a dónde está el coraje,
por que hoy que estás vencido
mendigas caridad.
Ya ves que no es lo mismo
amar que ser amado,
hoy que estas acabado
que lástima me das!
Maldito corazón
me alegro que ahora sufras,
que llores y te humilles
ante este gran amor.
La vida es la ruleta
en que apostamos todos
y a ti te había tocado
nomás la de ganar,
pero hoy tu buena suerte
la espalda te ha volteado:
fallaste corazón
no vuelvas a apostar.
Falsa baiana
Baiana que entra na roda, só fica parada
Não mexe, não samba, não bole nem nada
Não sabe deixar a mocidade louca
Baiana é aquela
Que entra no samba de qualquer maneira
Que mexe, remexe, dá nó na cadeira
E deixa a moçada com água na boca
A falsa baiana quando cai no samba
Ninguém se incomoda, ninguém bate palma
Ninguém abre a roda, ninguém grita ôba
Salve a Bahia, Senhor
Mas a gente gosta quando uma baiana
Queba direitinho, de cima embaixo
Revira os olhinhos dizendo
Eu sou filha de São Salvador
Fandangueiro
Letra: Pedro Homem de MelloMúsica: Alain Oulman
Sua canção fora a Gota.
Sua dança fora o Vira.
Chamavam-lhe "o fandangueiro".
Mas seu nome verdadeiro
Quando bailava, bailava...
Não era nome de cravo
Nem era nome de rosa;
Era o de flor, misteriosa,
Que se esfolhava, esfolhava…
E havia um cristal na vista
E havia um cristal no ar
Quando aquele fandanguista
Se demorava a bailar!
E havia um cristal no vento
E havia um cristal no mar.
E havia no pensamento
Uma flor por esfolhar...
Fandangueiro! Fandangueiro?
(Nem sei que nome lhe dar...)
Tinha seus braços erguidos
Não sei que ignotos sentidos...
- Jeitos de asa pelo ar...
Quando bailava, bailava,
Não era folha de cravo
Nem era folha de rosa.
Era uma flor, misteriosa,
Que se esfolhava, esfolhava...
Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2012
Faz hoje um ano
Música: Raúl Ferrão
***
Não olhes mais p'ra mim
Não foi p'ra amar que eu vim
Se em tal pensaste
Ao ver-me agora
É uma ilusão
P´ra isso eu já morri
Apenas venho aqui
Lembrar-te a hora
Em que mataste
Um coração
Faz hoje um ano
Dia por dia
Tenho-os contado
Que nos beijamos
Às escondidas
Naquela rua
Traçaste um plano
Todo alegria
Não estás lembrado?
E então juntámos
As nossas vidas
E então fui tua
Faz hoje um ano
Estava eu em festa
Cheia de esperança
Quanto abandono
Quanta maldade
Quanto impudor
Já desse engano
Pouco mais resta
Que uma lembrança
Que um lar sem dono
Que uma saudade
E o meu amor
Depois de mim também
Na vida amaste alguém
Alguém amaste
E essa paixão
Não foi feliz
É que Deus chora ao ver
Trair uma mulher
E tu pagaste
Uma traição
Que Deus não quis
Faz hoje um ano
Estava contigo
Viste-a à janela
Eu não vi nada
Nem vi que ela
Era a teu gosto
Que desumano
Foste comigo
Pior foi ela
Eu estou vingada
Mas tenho pena
Do teu desgosto
Faz hoje um ano
Tu não sentias
Raiva e despeito
Faz o que eu peço
Guia os teus passos
Ouve-me enfim
Se o desengano
Queima os teus dias
Chora em teu peito
Volta aos meus braços
Volta que eu espero
Volta p'ra mim
Faz-me pena
Música: Carlos Gonçalves
***
Que culpa tem o destino
Deste destino que eu tenho
Se o desgosto é pequenino
Eu aumento-lhe o tamanho
É meu destino
Se o desgosto é pequenino
Eu aumento-lhe o tamanho
Se o desespero matasse
Eu já teria morrido
Talvez alguém me chorasse
Talvez o tenha merecido
Talvez alguém
Talvez alguém me chorasse
Talvez o tenha merecido
Sinto que cheguei ao fim
Das ilusões que não tive
Porque alguém gosta de mim
Algo de mim sobrevive
Cheguei ao fim
Mas se alguém gosta de mim
Algo de mim sobrevive
Adeus que chegou a hora
Há muito a venho esperando
E se por mim ninguém chora
Faz-me pena e vou chorando
Já vou embora
E se por mim ninguém chora
Faz-me pena e vou chorando
Segunda-feira, 3 de Outubro de 2011
Flor de Lua

Velho cardo, esguio nardo
Grita o mar, geme o vento
Sexta-feira, 22 de Julho de 2011
Flor de verde pinho
Letra: Afonso Lopes VieiraMúsica: Carlos Gonçalves
Ó meu jardim de saudades
Verde catedral marinha
E cuja reza caminha
Pelas roboantes naves
Ai flores do verde pinho
Dizei que novas sabedes
Da minha alma cujas sedes
M'a perderam no caminho
Revejo-te e venho exangue,
Acolhe-me com piedade
Longo jardim da saudade
Que me puseste no sangue
Ai flores do verde ramo
Dizei que novas sabedes
Da minha alma cujas sedes
M'alongaram do que eu amo.
A tua alma em mim existe
E anda no aroma das flores
Que te falam dos amores
De tudo o que é lindo e triste
A tua alma com carinho
Eu guardo-a e deito-a a cantar
Das flores do verde pinho
Àquelas ondas do mar
Ai flores do verde ramo
Dizei que novas sabedes
Da minha alma cujas sedes
M'alongaram do que eu amo
Quinta-feira, 29 de Julho de 2010
Terça-feira, 18 de Maio de 2010
Foi Deus
Alberto Janes
*
Não sei,
Não sabe ninguém
Porque canto o fado
Neste tom magoado
De dor e de pranto
E neste tormento,
Todo o sofrimento
Eu sinto que a alma
Cá dentro se acalma
Nos versos que canto
*
Foi Deus,
Que deu luz aos olhos
Perfumou as rosas
Deu o oiro ao Sol
E prata ao luar
Foi Deus
Que me pôs no peito
Um rosário de penas
Que vou desfiando
E choro a cantar
*
E pôs as estrelas no céu
E fez o espaço sem fim
Deu luto as andorinhas
E deu-me esta voz a mim
*
Se canto,
Não sei o que canto
Misto de ventura
Saudade, ternura e talvez amor
Mas sei que cantando
Sinto o mesmo quando,
Se tem um desgosto
E o pranto no rosto
Nos deixa melhor
*
Foi Deus,
Que deu voz ao vento
Luz ao firmamento
E deu o azul às ondas do mar
Foi Deus
Que me pôs no peito
Um rosário de penas
Que vou desfiando
E choro a cantar
*
Fez poeta o rouxinol
Pôs no campo o alecrim
Deu as flores à Primavera
E deu-me esta voz a mim
