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Grazie Flavio Galvan Rotelli dal testo in italiano
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Je vous remercie Susana Metello le texte en francais
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Amália

Amália

***

José Galhardo / Frederico Valério

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Amália

Quis Deus que fosse o teu nome

Amália

Acho-lhe um jeito engraçado

Bem nosso e popular

Quando oiço alguém gritar

Amália

Canta-me um Fado

Amália

Esta palavra ensinou-me

Amália

Tu tens na vida que amar

São ordens do Senhor

E Amália sem amor

Não liga, tens de gostar

E como até morrer

Amar é padecer

Amália

Chora a cantar!


terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

Maçadeiras

Este linho é mourisco
A fita dele namora
Quem aqui não tem amores
Tira o chapéu vá-se embora

*

Ai la ri la ai ló lela ai
La ri la laró, meu bem
Regala-te o meu amor
Regala-te e passa bem

*

O minha mãe dos trabalhos
para quem trabalho eu
trabalho mato meu corpo
não tenho nada de meu

*

Ai la ri la ai ló lela ai
La ri la laró, meu bem
Regala-te o meu amor
Regala-te e passa bem

Madalena

Eu soube num sonho

Que aí com Simão

Jantáveis oh Cristo

De faces radiosas

E trago-vos bálsamos

Trago-vos rosas

E trago mil beijos

De límpida unção

*

Deixai que estas lágrimas

Tão dolorosas

Vos verta nos pés

Que iluminam o chão

Esses pés de marfim

Que me enchem

De Santa e fermente paixão

E lembram as bases

Do meigo jasmim

*

Quero eterno amor

Quero eterno amor

O amor sem vergonha

Sem treva e sem fim

Sem treva e sem fim

Jesus Nazareno

Meu Sol, meu Senhor

Jesus Nazareno

Meu Sol, meu Senhor

*

Oh Cristo!!!

E deixai que esses pés vos alague

De prantos assim

Talvez que este choro

Os meus crimes apague

Talvez que esta dor

Meus remorsos esmague

Talvez que esta angustia

Me faça um jardim

*

Que eu chore

Que eu gema

Numa dor sem fim

Aos pés de quem fez

Da virtude um poema

Da virtude um poema

Deixai que eu enxugue

Com estes cabelos

Os pés já banhados

Por dor tão suprema

*

E bálsamos verta

Talvez porque tema

Que os prantos vos firam

Os pés com seus gelos

Com sua postema

E amarga paixão

Oh Cristo!!!

Oh Vidente!!!

De meigos anelos

Jesus Nazareno

Perdão e perdão

Madrugada de Alfama

David Mourão-Ferreira

Alain Oulmã

*

Mora num beco de Alfama

E chamam-lhe a madrugada

Mas ela de tão estouvada

Não sabe como se chama

Nem sabe como se chama

*

Mora numa água furtada

Que é a mais alta de Alfama

A que o Sol primeiro inflama

Quando acorda a madrugada

Mora numa água furtada

Que é a mais alta de Alfama

*

Nem esmo na Madragora

Ninguém compete com ela

Que do alto da janela

Tão cedo beija Lisboa

*

E a sua colcha amarela

Faz inveja à Madragoa

Madragoa não perdoa

Que madruguem mais do que ela

E a sua colcha amarela

Faz inveja à Madragoa

*

Mora num beco de Alfama

E chamam-lhe a madrugada

São mastros de luz doirada

Os ferros da sua cama

*

E a sua colcha amarela

A brilhar sobre Lisboa

E como a estatua de proa

Que anuncia a caravela

A sua colcha amarela

A brilhar sobre Lisboa

Mal-aventurado

Bernardim Ribeiro

Alain Oulman

*

Mudei terra, mudei vida

Mudei paixão em paixão

Vi a alma de mim partida

Nunca de meu coração

Vi minha dor despedida

E eu, mal-aventurado

Morro-me andando assim

Entre cuidado e cuidado

*

Eu morrera e acabara

E meu mal fora acabado

Não vira tal perdição

De mim e de tanta coisa

Perdido tudo em vão

Porque a paixão não repousa

Em outra maior paixão

*

Oh quem bem-aventurado

Fora já se me matara

Minha dor e meu cuidado

Mala suerte


Maldição

Armando Vieira Pinto

Alfredo Marceneiro

(Fado Cravo)

*

Que destino ou maldição

Manda em nós, meu coração,

Um do outro assim perdidos

Somos dois gritos calados

Dois fados desencontrados

Dois amantes desunidos

*

Por ti sofro e vou morrendo

Não te encontro, nem te entendo

Amo e odeio sem razão

Coração quando te cansas

Das nossas mortas esperanças

Quando paras coração

*

Nesta luta, esta agonia

Canto e choro de alegria

Sou feliz e desgraçada

Que sina a tua meu peito

Que nunca estás satisfeito

Que dás tudo e não tens nada

*

Ah gelada solidão

Que tu me dás coração

Não é vida, nem é morte

É lucidez, desatino

De ler no próprio destino

Sem poder mudar-lhe a sorte

Maldição

 

Malhão

Oh malhão, malhão

Que vida é a tua

Comer e beber

Ai de rim, tim, tim

Passear na rua

*

Oh malhão, malhão

Quem te deu as meias

Foi o caixeirinho

Ai de rim, tim, tim

O das pernas feias

*

Oh malhão, malhão

Quem te deu as botas

Foi o caixeirinho

Ai de rim, tim, tim

O das pernas tortas

*

Oh malhão, malhão

Oh Margaridinha

Eras do teu pai

Ai de rim, tim, tim

Mas agora és minha


Malhão das Pulgas

Ai, ai, ai quem é que nos acode

Quem é que nos há-de acudir

As pulgas, são tantas, são tantas

As pulgas

Já não nos deixam dormir

*

Já não nos deixam dormir

Já não sequer descansar

As pulgas são tantas, são tantas

As pulgas

Não se deixam apanhar

*

São tantas, as pulgas, as pulgas

Às tantas, não se deixam agarrar

*

Ai malditas pulgas

Malditas pulguinhas

São como as más línguas

Das nossas vizinhas

A rogarem pragas

Sempre às janelinhas

Malditas pulguinhas

*

Ai malditas pulgas

Malditas pulguinhas

São como os rapazes

De falas mansinhas

A arrastar a asa

Às rapariguinhas

Malditas pulguinhas

*

Ai, ai, ai quem é que nos acode

Quem é que nos há-de acudir

As pulgas, são tantas, são tantas

As pulgas

Já não nos deixam dormir

*

Já não nos deixam dormir

Já não sequer descansar

As pulgas são tantas, são tantas

As pulgas

Não se deixam apanhar

*

São tantas, as pulgas, as pulgas

Às tantas, não se deixam agarrar

*

Ai malditas pulgas

Malditas pulguinhas

São como um sapato

Cheio de pedrinhas

Que nos faz andar

A suar estopinhas

Malditas pulguinhas

*

Ai malditas pulgas

Malditas pulguinhas

São como as amigas

Cheias de entrelinhas

A meter o bico

Nas nossas vidinhas

Não são cá das minhas

Malhão de Águeda


Oh malhão triste malhão

Oh malhão triste malhão

Oh lindinho

Triste vida te hei-de dar

Não hei-de casar contigo

Não hei-de casar contigo

Oh lindinho

Nem te hei-de deixar casar

*

Oh malhão triste malhão

Oh malhão triste malhão

És tão linda

Oh malhão triste coitado

Por causa de ti malhão

Por causa de ti malhão

Ai lindinha

Ando triste, apaixonado

*

Oh minha menina

Não vale chorar

Hás-de ter amores

Sabê-los amar

*

Uma duas três e vira

Uma duas três e vira

Ai que lindo

Viva quem dança o malhão

Viva quem há-de subir

Viva quem há-de subir

Ai que lindo

De alferes a capitão

*

Ai minha menina

Eu hei-de te amar

Quando o trovisquinho

Deixar de amargar

Malhão de Cinfães

Oh malhão, triste malhão

Ai, malhão triste malhão

Oh malhão triste coitado

Por ti eu suspiro,

Eu por ti dou ais

Por ti eu não vou

Suspirar jamais

*

Oh malhão triste coitado

Por causa de ti malhão

Ando triste, apaixonada

Por ti eu suspiro,

Eu por ti dou ais

Por ti eu não vou

Suspirar jamais

*

O malhão quando morreu

O malhão quando morreu

Deixou escrito na escritura

Por ti eu suspiro,

Eu por ti dou ais

Por ti eu não vou

Suspirar jamais

*

Deixou dito na escritura

Que lhe forrasse o caixão

Com pano de pouca dura

Por ti eu suspiro,

Eu por ti dou ais

Por ti eu não vou

Suspirar jamais


Malhão de São Simão

P’ra onde vais toda lampeira

Morena de olhos travessos

P’ra onde vais toda lampeira

Ai, malhão, malhão

P’ra onde vais toda lampeira

Tão depressa e coradinha

Toda cheia de chieira

*

Isto é do pó da eira

Chamaste-me moreninha

Isto é do pó da eira

Ai, malhão, malhão

Isto é do pó da eira

Hás-de me ver ao Domingo

Como a rosa na roseira

*

Põe-te em lugar que te eu veja

Se fores Domingo à missa

Põe-te em lugar que te eu veja

Ai, malhão, malhão

Põe-te em lugar que te eu veja

Não faças andar meus olhos

A bailar pela Igreja

*

Hei-de ir à missa do dia

Para o Domingo que vem

Hei-de ir à missa do dia

Ai, malhão, malhão

Hei-de ir à missa do dia

Para ver o meu amor

À porta da sacristia


Malmequer

Oh malmequer mentiroso
Quem te ensinou a mentir
Tu dizes que me quer bem
Quem de mim anda a fugir
*
Desfolhei um malmequer
Num lindo jardim de Santarém
Malmequer, bem-me-quer
Muito longe está quem nos quer bem
*
Um malmequer pequenino
Disse um dia à linda rosa
Por te chamarem rainha
Não sejas tão orgulhosa
*
Desfolhei um malmequer
Num lindo jardim de Santarém
Malmequer, bem-me-quer
Muito longe está quem nos quer bem
*
Malmequer não é constante
Malmequer muito varia
Vinte folhas dizem morte
Treze dizem alegria
*
Desfolhei um malmequer ...

Malmequer pequenino

O malmequer pequenino

Disse um dia à linda rosa

Por te fazerem rainha

Não sejas tão orgulhosa

*

Papoilas que o vento agita

Não me canso de vos ver

Há lá coisa mais bonita

Que ser simples sem saber

*

Por te amar pedi a Deus

Por teu amor me perdi

Agora vejo-me só

Sem Deus, sem amor, sem ti

*

Aquela mulher pecou

Por amor se fez fadista

Tão longe o fado a levou

Que Deus a perdeu de vista


Mané Chiné

Se os meus tristes ais voassem

Ó Mané Chiné

Daria mil cada hora

Bá di banda

Di banda é que é

Bá di banda

Ó Mané Chiné

*

Iriam bater no peito

Ó Mané Chiné

De quem me lembrou agora

Bá di banda

Di banda é que é

Bá di banda

Ó Mané Chiné

*

Anda cá meu preto, preto

Ó Mané Chiné

Meu queimadinho do Sol

Bá di banda

Di banda é que é

Bá di banda

Ó Mané Chiné

*

Quanto mais preto, mais firme

Ó Mané Chiné

Quanto mais firme, melhor

Bá di banda

Di banda é que é

Bá di banda

Ó Mané Chiné

*

Anda cá meu preto, preto

Ó Mané Chiné

Meu queimadinho do Sol

Bá di banda

Di banda é que é

Bá di banda

Ó Mané Chiné

Marcha da Graça – 1968

Eduardo Damas

Manuel Paião

*

Olhem p’ra Marcha da Graça

Que é o trono de Lisboa

Vejam como vai airosa

Com ar de menina boa

*

Dizem que é namoradeira

Quem tem mais dum namorado

O Rossio ali em baixo

Ai ali em baixo

E o Castelo ali ao lado

*

Cá vai a Marcha da Graça

Que tem graça quando passa

E tem raça ao marchar

E lá no alto apregoa

E ecoa, como é boa

A Lisboa ao cantar

*

Cá vai a Marcha da Graça

Que tem graça quando passa

E tem raça ao marchar

E lá no alto apregoa

E ecoa, como é boa

A Lisboa ao cantar

*

Ai, ai, ai

Vai a Graça a passar

Ai, ai, ai

Vai a Graça a passar

*

Olhem p’ra Marcha da Graça

Como vai feliz, contente

Com o Monte a olhar p’ra ela

E a bênção de São Vicente

*

Leva arcos enfeitados

Mostra balões a quem passa

E dá ainda mais voltas

Ainda mais voltas

Do que o Caracol da Graça

*

Cá vai a Marcha da Graça…

Marcha da Mouraria – 1935

Frederico de Brito

Raul Ferrão

*

Mouraria garrida

Muito sacudida

Muito requebrada

Com o seu todo galdério

Seu ar de mistério

De moira encantada

*

É como livro de novela

Onde o amor é curto

E o ciúme impera

Ao abrir de uma janela

Aparece o vulto

Daquela Severa

*

A Marcha da Mouraria

Tem o seu quê de bairrista

Certos laivos de alegria

É a mais boémia

É a mais fadista

*

Anda toda engraçada

De saia engomada

Blusinha de chita

É franzina, pequena

Gaiata morena

Cigana e bonita

*

Tem a guitarra p’ra gemer

Um amor submisso

Que nunca atraiçoa

Este bairro deve ser

‘inda o mais castiço

Da nossa Lisboa

*

A Marcha da Mouraria…

Marcha de Alfama - 1935


Frederico de Brito

Pereira Coelho

Raul Ferrão

*

Não há ninguém que destrua

Este amor que nos abrasa

Cada um gosta da rua

Onde tem a sua casa

*

Quem na minha Alfama passa

Vê-a toda embandeirada

Porque o São João da Praça

Porque o São João da Praça

Assentou praça na armada

*

No alto mar,

Fomos nós sempre os primeiros

Com Alfama a palpitar

Em fardas de marinheiros

Porque afinal

Foi destas pobres vielas

Que saiu o Portugal

Que embarcou nas caravelas

*

Quem quiser beijinhos pede-os

Quem não pede é porque é mudo

Vá à rua dos remédios

Que há remédio para tudo

*

Meu amor, amou sem fé

Deixou-me por coisa pouca

Mora nas Cruzes da Sé

Mora nas Cruzes da Sé

E eu faço cruzes na boca

*

No alto mar…

Marcha de Benfica Nº 1 - 1935

Frederico de Brito

Raul Ferrão

*

Ah raparigas

Isto agora é andarmos p’ra frente

Saltem cantigas aos molhos

Sorriso nos olhos

E coração quente

*

Cá vai Benfica

E quem fica, não vai com certeza

Ser alegre é que é preciso

Pois quem tem o riso

Tem sempre beleza

*

Olha a Marcha de Benfica

Qual saloia cantadeira

Que entra na festa contente

Ai ninguém fica

Sem cantar a vida inteira

Ouvindo a Marcha

Da nossa gente

*

Haja alegria

A alegria é um bem que se abraça

Um desejo, uma quimera

Um riso que espera

A Marcha que passa

*

Vá por Benfica

Tudo alegre e contente

P’ra dança

Há sempre um riso suspenso

Um tesouro imenso

Que nos vem da herança

*

Olha a Marcha de Benfica…


Marcha de São Vicente – 1935

Frederico de Brito

Raul Portela

*

Quando eu passo nos terreiros

O teu amor não me quadra

É que eu tenho medo

Das más acções

Pois os teus olhos brejeiros

Andam na Feira da Ladra

Diz toda a gente

Que são ladrões

*

A Marcha de São Vicente

Alegra a gente, quando passar

Pois parece que atordoa

Toda a Lisboa

Que a ouve cantar

Acendeu aquela chama

Que torna os bravos em imortais

Não vive só da antiga fama

Pois São Vicente é muito mais

*

Quem puder vir com a gente

Há-de trazer um balão

Um arco enfeitado

E saber marchar

Vai pedir a São Vicente

Ele não lhe diz que não

E então vem na Marcha

Sempre a cantar

*

A Marcha de São Vicente…


Marcha do Alto do Pina (1963)

César de Oliveira

Augusto Ramos

Carlos Dias

*

Quando o Sol sorri sobre Lisboa

Logo o Alto Pina vai beijar

E saudar a gente boa

Que parte p’ra trabalhar

*

Mas a noite chega e surge a Lua

P’ra ‘nimar os bailaricos

Toda a gente vem p’ra rua

E no ar flutua, cheiro a manjerico

*

Aqui vai o Alto Pina

E ninguém lhe ensina

A ser mais popular

Trás na boca essas cantigas

Que as raparigas

Tanto gostam de cantar

*

Pula a fogueira num salto

P’ra manter a tradição

Um balão

O nosso bairro ilumina

Erguido no alto

No Alto do Pina

*

Vamos lá cantar deixem o resto

Venham cá ao bairro para o ver

É pitoresco e modesto

Mas alfacinha a valer

*

Alegre cantando a Marcha passa

Airosa, fresca e ladina

Mostrando bem toda a raça

Que leve esvoaça no Alto do Pina

*

Aqui vai o Alto Pina


Marcha do centenário – Grande Marcha de Lisboa ( 1947 )

Norberto de Araújo

Raul Ferrão

*

Toda a cidade flutua
No mar da minha canção
Passeiam na rua,

Pedaços de lua
Que caem do meu balão
*

Deixem Lisboa folgar
Não há mal que me arrefeça
A rir, a cantar, cabeça no ar
Eu hoje perco a cabeça
*

Lisboa nasceu,

Pertinho do céu
Toda embalada na fé
Lavou-se no rio,

Ai, ai, ai menina
Foi baptizada na Sé
*

Já se fez mulher

E hoje o que ela quer
É trovar e dar ao pé
Anda em desvario

Ai, ai, ai menina
Mas que linda que ela é
*

Dizem que eu velhinha sou
Há oito séculos nascida
Nessa é que eu não vou,

Por mim não passou
Nem a , nem a vida
*

O Pajem me fez um fado
Um vali me leu a sina
Não ter namorado,

Nem dor, nem cuidado
E ficar sempre menina

*

Lisboa nasceu …


Marcha do Fado

José Lopes Almeida

Armando Quatorze

*

Cá vai a Marcha do Fado

Que pode não ser castiço

Se o cantamos mal cantado

Se o dançamos mal dançado

Ninguém tem nada com isso

*

Alfacinhas de ginjeira

Temos a Marcha no sangue

Marchamos por brincadeira

Se não gostas da maneira

Quem não gostar que se zangue

*

Cá vai a gente

Gente que não tem mania

Diz o que sente

Que agora sente alegria

O que nos falta

Pode-nos faltar a graça

Mas esta malta

Pode de tudo ter falta

Mas não tem falta de raça

*

Aqui estamos p’ro despique

Co’a Madragoa e Alfama

Até com Campo de Ourique

Quem não quiser vir que fique

Mas é fadista da trama

*

A nossa Marcha é de todos

Não é minha nem é tua

Se gostam dos nossos modos

Venham, que podem vir todos

Venham p’ro olho da rua

*

Cá vai a gente …


Maremma

Tuttti mi dicon maremma maremma

ma a me mi sembra una maremma amara

l'uccello che ci va perde la penna

io c'ho perduto una persona cara

sia maledetta maremma maremma

e maledetto sia pure chi l'ama

mi piange tanto 'l cor quando ci vai

ché ho paura che non torni mai

Maria da Cruz

Amadeu Augusto dos Santos

Frederico Valério

*

Chamava-se ela Maria

De sobrenome da Cruz

E na aldeia onde vivia, sorria,

Vivia na paz de Jesus

*

Tinha um amor a quem ela

Seu coração entregara

Junto ao altar da capela

Singela, onde ela

Paixão lhe jurara

*

Mas certo dia

Veio a saber-se na aldeia

Que o seu pastor lhe mentia

Que esse amor se lhe extinguia

Como a luz de uma candeia

*

Desiludida do seu amor a Maria

Deixou o lar e perdida

Foi cair desfalecida

Num portal da Mouraria

*

Sofreu a dor da amargura

Perdeu o viço e a cor

E não voltou à ventura

À doçura, à ternura

Do amor do pastor

*

E hoje por cruz a Maria

Que é da Cruz, por seu fadário

Arrasta na Mouraria

A cruz da agonia

A cruz do calvário

*

Ainda canta

Uma canção quase morta

Mas o estertor na garganta

Oiço já quando ela canta

Ao passar à sua porta

*

Não tarda o dia

Em que ela enfim, já vencida

Terminará a agonia

De arrastar na Mouraria

Toda a cruz da sua vida

Maria la Portuguesa

Carlos Cano

*

En las noches de luna y clavel,
de Ayamonte hasta Villareal,
sin rumbo por el río, entre suspiros,
una canción viene y va
Que la canta María
al querer de un andaluz.
María es la alegría
y es la agonía
que tiene el sur.
*
Que conoció a ese hombre
en una noche de vino verde y calor
y entre palma y fandango
la fue enredando, le trastornó el corazón
Y en las playas de Isla
se perdieron los dos,
donde rompen las olas, besó su boca
y se entregó
*
¡Ay, María la portuguesa!
Desde Ayamonte hasta Faro
se oye este fado por las tabernas
Dónde bebe viño amargo
¿Por qué canta con tristeza?
¿Por qué esos ojos cerrados?
Por un amor desgraciado,
por eso canta, por eso pena
*
Fado

porque me faltan sus ojos
Fado

porque me falta su boca
Fado

porque se fue por el río
Fado

porque se fue con la sombra
*
Dicen que fue el te quiero
de un marinero, razón de su padecer
Que en una noche en los barcos
del contrabando, p'al langostino se fue
Y en la sombra del río,
un disparo sonó
Y de aquel sufrimiento
nació el lamento
de esta canción
*
¡Ay, María la portuguesa!...


Maria Lisboa

David Mourão-Ferreira

Alain Oulman

*

É varina, usa chinela,
Tem movimentos de gata
Na canastra, a caravela,
No coração, a fragata
*
Em vez de corvos no xaile,
Gaivotas vêm pousar
Quando o vento a leva ao baile,
Baila no baile com o mar
*
É de conchas o vestido,
Tem algas na cabeleira,
E nas veias o latido
Do motor duma traineira
*
Vende sonho e maresia,
Tempestades apregoa
Seu nome próprio, Maria
Seu apelido, Lisboa

Maria Rita, cara bonita

Fui um dia a uma caçada

Ó Maria Rita, eras tão bonita

Entrei na cevada, aveia

*

Vi uma lebre deitada

Ó Maria Rita, eras tão bonita

Com o pé alevantei-a

*

Além vem a Maria Rita

Com o chapeuzinho ao lado

Trás calças de tiroliro

Casaca de pano

Chapéu desabado

*

Meti a espingarda à cara

Ó Maria Rita, eras tão bonita

Dei ao gatilho matei-a

*

Já vinha ferida doutro

Ó Maria Ria, era tão bonita

Não eras minha deixei-a

*

Atirei um tiro à pomba

A pomba no ar voou

Enleou-se naquela roseira

E a maldita pomba sempre lá ficou

Martírios


Medo

Reinaldo Faria

Alain Oulman

*

Quem dorme à noite comigo?

Quem dorme à noite comigo
É meu segredo, é meu segredo
Mas se insistirem lhes digo

Mas se insistirem lhes digo
O medo mora comigo,

O medo mora comigo
Mas só o medo,

Mas só o medo
*
E cedo porque me embala

E cedo porque me embala
Num vai vem de solidão
É com silêncio que fala

É com silêncio que fala
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão

E nos perturba a razão
*
Gritar.. Quem pode salvar-me

Gritar.. Quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim?
Gostava até de matar-me

Gostava até de matar-me
Mas eu sei

Que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim

Ao pé da ponte do fim


Meia-noite e uma guitarra

Álvaro Duarte Simões

*

Meia-noite e uma guitarra

Meia vida por viver

E a saudade que se agarra

Ao cantar de uma mulher

*

Pelas ruas mais sombrias

Passa o tempo que passou

Serenata de outros dias

Que a voz do tempo cantou

*

É loucura sem sentido

Caminhar por onde vou

Viver é estar-se perdido

Morrer é estar onde estou

*

Meia-noite é meio da vida

Meia vida por viver

Guitarra triste e esquecida

Que ninguém sabe entender

Menina Lisboa


Amadeu Augusto do Santos

Raul Ferrão

*

Menina Lisboa

Você com franqueza

Está muito bonita

Tem olhos gaiatos

Um ar de princesa

Vestida de chita

*

Que voz tão suave

Que alegra e encanta

Se acaso apregoa

Agora reparo

Você também canta

Menina Lisboa

*

Quem lhe pôs o Tejo aos pés

Com seus barcos enfeitados

Quem lhe deu as chaminés

Que você tem nos telhados

*

E o fumo que sobe

Que todo se apruma

Que rola e que voa

Parece impossível

Você também fuma

Menina Lisboa

*

Menina Lisboa

Você é daquelas

Que em noites de Lua

Namora os craveiros

Das altas janelas

Que deitam p’ra rua

*

E baila no vira

Que vira e não cansa

Pela Madragoa

Agora é que eu vejo

Você também dança

Menina Lisboa

*

Você gosta já se vê

Dum fadinho a soluçado

Você tem bem sei porquê

Esse gosto pelo Fado

*

Tão triste e dolente

Ouvi-o agora

Que bem que ele soa

É como lhe digo

Você também chora

Menina Lisboa

Mentira

Porque mentes tanto,

Mentes sem cessar,

Mentira é a luz do teu olhar

Mentes quando falas

Mentes quando te calas

Mentira é o teu riso

E o teu pranto

*

Mentira é o teu corpo fermente

As tuas carícias, os teus beijos

Falso é o calor fugaz

Da tua pele ardente

E o amor dos teus desejos

*

Dentro do teu peito

Tudo é de tal jeito

Que nem tu próprio

Sabes o que sentes

Os teus pensamentos

Ao sabor dos ventos

Que nem tu dás por isso

Quando mentes

*

Mas se assim em ti

Tudo é mentira

Mente uma vez mais

Por caridade

Diz-me que é o desvairo

Do ciúme

Que me inspira

Que o teu amor é verdade

Meu amigo está longe

Ary dos Santos

Alain Oulman

*

Nem um poema, nem um verso, nem um canto

Tudo raso de ausência, tudo liso de espanto

Amiga, noiva, mãe, irmã, amante

Meu amigo está longe

E a distância é tão grande

*

Nem um som, nem um grito, nem um ai

Tudo calado, todos sem mãe, nem pai

Amiga, noiva, mãe, irmã, amante

Meu amigo está longe

E a tristeza é tão grande

*

Ai esta mágoa, ai este pranto, ai esta dor

Dor do amor sozinho, o amor maior

Amiga, noiva, mãe, irmã, amante

Meu amigo está longe

E a saudade é tão grande


Meu amor é marinheiro

Manuel Alegre

Alain Oulman

*

Meu amor é marinheiro

E mora no alto mar

Seus braços são como o vento

Ninguém os pode amarrar

*

Quando chega à minha beira

Todo o meu sangue é um rio

Onde o meu amor aporta

Meu coração um navio


*
Meu amor disse que eu tinha
Na boca um gosto a saudade
E uns cabelos onde nascem
Os ventos e a liberdade
*
Meu amor é marinheiro
Quando chega à minha beira
Acende um cravo na boca
E canta desta maneira
*
Eu vivo lá longe, longe
Onde moram os navios
Mas um dia hei-de voltar
Às águas dos nossos rios
*
Hei-de passar nas cidades
Como o vento nas areias
E abrir todas as janelas
E abrir todas as cadeias
*
Meu amor é marinheiro
E mora no alto mar
Coração que nasceu livre
Não se pode acorrentar

Meu limão de amargura

Ary dos Santos

Alain Oulman

*

Meu amor, meu amor

Meu corpo em movimento

Minha voz à procura

Do seu próprio lamento

*

Meu limão de amargura

Meu punhal a crescer

Nós parámos o tempo

Não sabemos morrer

*

E nascemos, nascemos

Do nosso intristecer

*

Meu amor, meu amor

Meu pássaro cinzento

A chorar a lonjura

Do nosso afastamento

*

Meu amor, meu amor

Meu nó de sofrimento

Minha mó de ternura

Minha nau de tormento

*

Este mar não tem cura

Este céu não tem ar

Nós parámos o vento

Não sabemos nadar

*

E morremos, morremos

Devagar, devagar

Meu nome sabe-me a areia

Vasco de Lima Couto

Alfredo Duarte

*

Meu nome sabe-me a areia

Que cresce num rio novo

Entre as verdades que sonho

E as tristezas que transponho

Meu nome sabe-me a povo

*

Corro os caminhos do mundo

Como um tronco de raiz

E se canto uma saudade

Eu limito a humanidade

Aos campos do meu país

*

Meu nome gastou os dias

Que eu tive de amor ao lado

Vivo a apagar uma estrela

E no desejo de vê-la

Meu nome sabe-me a fado

Mi carro

Mi carro me lo robaron,

estando de romería

Mi carro me lo robaron,

a noche cuando dormía

*

¿dónde estará mi carro?

¿dónde estará mi carro?

*

Me dicen que le quitaron,

los clavos que relucían,

Creyendo que eran de oro

de limpios que los tenía

*

¿dónde estará mi carro?

¿dónde estará mi carro?

*

Donde quiera que esté,

mi carro es mío,

Porque en él me crié

allá en el río

Si lo llego a encontrar,

vendrá conmigo,

En mi carro de amor,

por el camino

Mi niña ( Que bonita que es mi niña )

Manuel Cabrera
Francisco Garcia del Val
*
Ayer tarde yo cantaba
Mientras mi niña dormia
Y los almendros lloraban
Y los almendros lloraban
De la infinita alegria
*
Que bonita es mi niña
Que bonita cuando duerme
Que parece una amapola
Entre los trigales verdes
*
Julgaba al escondite
El sol con los limoneros
Y los almendros miraban
Y los almendros miraban
Por ver dormir a un lucero
*
Que bonita es mi niña...

Mi Rita bonita

António Castellanos Oliveros

Juan Solano

*

Cuentan que en Andalucía
En el café de Chinitas
Hubo una moza trigueña
Que le llamaban la Rita
*
Bailaora de tronío
La de ojeras angulás
Con sus chátiles de raso
Y sus enaguas rizás
*
Y se la llevó un gitano
La que quiso el señorío
Que tuvo por nombre Paco
Y fue de color sombrío
*
Ay, que con el aire que tú llevas
Ay, que cuando tú vas bailando
Los ojitos de tu cara

De vida me van llenando
Y a todo el mundo le digo
Este estribillo cantando
*
Ya me quiere mi Rita bonita
La llave de mi tesoro de oro
Que ya tengo quien me diga
Paco, llévame a los toros
Paco, llévame a los toros
*
En juergas y romerías
Luce Rita su tornao
Y Paco va de veleta
Con sus anillos doraos
*
Una hembra de bandera
Se interrumpe entre los dos
Y en defensa de su Paco
Rita la vida perdió
*
Según tocan los flamencos
Y toda la torería
En Chinitas y sus espejos
Crespones negros ponía
*
Ay, que con el aire que tú llevabas
Ay, que cuando tú ibas bailando
Los ojitos de mi cara

De pena se están llenando
Y a todo el mundo le digo
Este estribillo penando
*
Y se murió ya mi Rita bonita
La llave de mi tesoro de oro
Ya no tengo quien me diga
Paco, llévame a los toros
Paco, llévame a los toros


segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

Minha boca não se atreve

Não se atreve a minha boca

Que eu não a deixo atrever

A dizer que eu ando louca

Que ando louca por te ver

*

Não se atreve a minha boca

Ao grito que eu quero dar

Não se atreve a minha boca

Que eu não a deixo gritar

*

Minha boca não se atreve

Não segue o meu coração

E não diz o que não deve

É a minha expiação

*

Minha boca não se atreve

A dizer o que lhe digo

Se ela se atrever em breve

Sabes que sonho contigo

*

Ai minha boca atrevida

Já mo disseste a mim

E encheste a minha vida

Desse segredo ruim


Minha canção é saudade

Vaz Fernandes

Frederico de Brito

*

De ilusões desvanecidas

Fumo de esperanças perdidas

Minha canção é saudade

Em que de tranças caídas

Via tudo em cores garridas

E em todos via bondade

*

E nesta sinceridade

De amor e sensualidade

Ponho a alma, o coração

Numa angustia, uma ansiedade

Minha canção é saudade

De um amor sonhado em vão

*

Nesta saudade sem fim

Choro saudades de mim

Sou mulher, mas fui pequena

Também brinquei e corri

Mas quem sabe se sofri

Se é de mim que tenho pena

Minha mãe

João Linhares Barbosa

Franklin Godinho

*

Minha mãe, ó minha mãe

Abre-me o teu coração

Deixa encostar-me ao teu peito

Eu não tenho mais ninguém

Quero pedir-te perdão

Pelo mal que tenho feito

*

Foi ele, eu gostava dele

Uma tentação constante

A minha noite, o meu dia

Ninguém mais belo do que ele

Meu respirar ofegante

Água pura que eu bebia

*

O mundo será dos dois

Disse, sorrio-me, sorri

Foi-se embora satisfeito

Vi-o com outra depois

Logo uma brasa senti

Queimar-me dentro do peito

*

Desmaiei, tornei a mim

Ainda o vi dar um beijo

Na boca dessa mulher

Ó minha mãe, foi assim

Mas vou ver se ainda o vejo

A ver se ele ‘inda me quer


Minha mãe me deu um lenço

Minha mãe me deu um lenço

E meu pai uma blusa

*

Eu quero andar em cabelo

Que é o que se agora usa

*

Eu perdi o meu lencinho

Num bailarico a bailar

*

Minha mãe não me dá outro

Em cabelo eu hei-de andar

Mio amor, mio amor

R. Arnaldi

Alain Oulman

*

Mio amor, mio amor

Mio corpo in movimento,

Mia voce perduta

Nel suo triste lamento

Mio color di sventura

Mio vagar e vagar

Noi fermiamo il tempo

Non sappiamo morir

E nasciamo, nasciamo

Dal nostro inaridir

*

Mio amor, mio amor

Mio passero d’argento

A cantar la tortura

Del nostro andar nel vento

*

Mio amor, mio amor

Mio nodo di tormento

Mia eco lontana

Mia marea di rimpianto

Questo mar non ha senso

Questo cielo è lontan

Noi fermiamo il vento

Non sappiamo sperar

E moriamo, moriamo

Nel vagar e vagar

Morrinha

Amália Rodrigues
Carlos Gonçalves

*
Ai sonhos, prantos, rios, vosso corpo
De lírio e hortelã agreste
São sonho que morre
São água que corre
Que da minha sede
Bebeste
*
Na minha cama há um lençol de linho
Que hoje é como eu, sozinho
A sua brancura
E a minha ternura
São minha loucura
Meu espinho
*
Na minha solidão que é toda minha
Na minha solidão sozinha
Tristeza em botão
Que eu guardo na mão
Crescendo, crescendo
Morrinha

sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

Na esquina de ver-o-mar

Luís Macedo

Alain Oulman

*

Foi no Outeiro da Graça

Na esquina de ver-o-mar

Quanto é triste essa desgraça

Que finge alegria e passa

Pelas ruas a cantar

*

Foi no Outeiro d’Ajuda

Na esquina de ver o Tejo

Quem é triste não se iluda

Que essa tristeza não muda

Mesmo que mude o desejo

*

Foi no Outeiro do Céu

Ao olhar o mar e o rio

Que uma noite aconteceu

Que o sonho que era só meu

Passou por mim, mas perdi-o


Na rua do silêncio


António de Sousa Freitas

Alfredo Duarte

*

Na rua do silêncio

É tudo mais ausente

Até foge o luar

E até a vida é pranto

Não há juras de amor

Não há quem nos lamente

E o Sol quando lá vai

É p’ra deitar quebranto

*

Na rua do silêncio

O Fado é mais sombrio

E as sombras de uma flor

Não cabem lá também

A rua tem destino

E o seu destino frio

Não tem sentido algum

Não passa lá ninguém

*

Na rua do silêncio

As portas estão fechadas

E até o sonho cai

Sem fé e sem ternura

Na rua do silêncio

Há lágrimas cansadas

Na rua do silêncio

É sempre noite escura

Não digas mal dele

João Linhares B

João Linhares Barbosa

Armando Augusto Freire (Armandinho)

(Fado Mayer)

*

Foi mau, não minto,

Falso, ruim, vil e cruel,

Mas não consinto

Que ao pé de mim

Digas mal dele

*

Tu és banal,

Não se perdoa,

Não é decente

Dizer-se mal

De uma pessoa

Que está ausente

*

Não, não tolero

E não quero

Trazer de novo à cena

Dor que ainda me dói,

Não foi nada contigo

Não, não tolero,

A não ser que tenhas pena

De não ser como ele foi,

Para meu maior castigo

*

Tudo ruiu

Como um castelo

Feito na areia

Deves tal brio

E não trazê-lo

À minha ideia

*

Agora é tarde

Para censuras,

Sabe-lo bem

Que Deus o guarde

De desventuras

E a nós também

Não é desgraça ser pobre

Norberto Araújo

(Fado Menor do Porto)

*

Não é desgraça ser pobre,
Não é desgraça ser louca
Desgraça é trazer o fado
No coração e na boca
*

A moedinha de prata

Vale menos que a de cobre

Se a pobreza não nos mata

Não é desgraça ser pobre

*
Nesta vida desvairada,
Ser feliz é coisa pouca.
Se as loucas não sentem nada,
Não é desgraça ser louca
*
Ao nascer trouxe uma estrela
Nela o destino traçado
Não foi desgraça trazê-la
Desgraça é trazer o fado
*
Desgraça é andar a gente
De tanto cantar, já rouca,
E o fado teimosamente,
No coração e na boca


Não é tarde

Leonel Neves

António Mestre

*

Quem acha o seu bem amado

Devia não ter sofrido

Nem sua vida ter sido

Mais um motivo de Fado

*

O meu amor verdadeiro

Achou-me desiludida

O grande amor duma vida

Devia ser o primeiro

*

Refrão

*

Ai não me digam que é tarde

Chegou ele, é o que importa

O meu passado é que arde

Renasce a esperança já morta

Sou tal qual uma guitarra

A um cantinho esquecida

Quando ele vem e me agarra

É que eu me sinto com vida

*

E não me viu quando eu era

Menina de horas quietas

De laços e tranças pretas

E o coração puro à espera

*

Ele também não me via

Também ele era menino

Também bebia o destino

Sem saber o que bebia

Não peças demais à vida

Álvaro Duarte Simões

*

Não peças demais à vida

Aceita o que ela te deu

Uma janela florida

Mostra a cor do azul do céu

*

Afinal a felicidade

Cabe num rosto a sorrir

Ai de quem sente a ansiedade

De viver sempre a pedir

*

Não peças demais à vida

Aceita o que ela te dá

Porque a ambição desmedida

Faz-nos querer o que não há

*

E não há sinceramente

Maneira de ser feliz

P’ra quem quer constantemente

Ser mais feliz do que quis

*

Não peças demais à vida

A aceita o que ela te der

Às vezes basta a guarida

Dum abraço de mulher

*

Num sorriso de criança

O no Sol quente a brilhar

Existe um tesouro de esperança

Que ninguém pode comprar

*

Se afinal basta a guarida

De um abraço de mulher

Não peças demais à vida

E aceita o que ela te der

Não quero amar

José Ferreira da Costa

Armando Quatorze

*

Oferece o teu amor

A quem te possa amar

A minha boca é fria

Não tem alegria

Nem mesmo a cantar

*

Na cruz da tua vida

Não quero mais sofrer

Não quero ser vencida

Nem mulher perdida

Por tanto te querer

*

Não queiras no peito esta flor

Sem perfume e sem cor

Que não sabe enfeitar

Não queiras a esmola do amor

De quem não sabe dar

Amantes, não quero, não quero

Só este me pode agradar

É belo e castiço o meu Fado

O amante sem par

*

É ele que me beija

É ele que me abraça

Nas noites de luar

Se fico a pensar

Na vida que passa

*

E passa a vida inteira

Saudade e amargor

Ao longe uma toada

Canta a madrugada

E és tu meu amor

Não sei porque te foste embora


José Galhardo

Frederico Valério
*
Não sei por que te foste embora
Não sei que mal te fiz, que importa,
Só sei que o dia corre e àquela hora,
Não sei por que não vens bater-me à porta
*
Não sei se gostas de outra agora,
Se eu estou ou não para ti já morta
Não sei, não sei nem me interessa,
Não me sais é da cabeça
Que não vê que eu te esqueci
*
Não sei, não sei o que é isto
Já não gosto e não resisto
Não te quero e penso em ti
*
Depois de este meu querer desfeito,
Nem quero o teu amor sincero
Não quero mais encontrar-te,
Nem ouvir-te nem falar-te,
Nem sentir o teu calor
Porque eu não quero que vejas
Que este amor que não desejas
Só deseja o teu amor

Amália Rodrigues

Carlos Gonçalves
*
Lembram lenços a acenar
Lembram bandeirinhas brancas
As nuvens que andam no ar
*
Nossa Senhora medita
Do Céu vem em paz a descer
E a manhã está tão bonita
*
Morram dores
E nasçam os amores
Abram flores
A cantar
Oliveira
Na paz do olival
Dá-me a tua flor primeira
Natal
*
Sobre uma nuvem além
Eu vi mas não posso crer
O Menino e sua mãe
*
Menino de mãos macias
Sejam teus gestos primeiros
Louvados todos os dias

Nasci para ser ignorante

Sebastião da Gama

Carlos Gonçalves

*

Nasci para ser ignorante
Mas os parentes teimaram
E dali não arrancaram
Sem fazer de mim estudante
*
Que remédio obedeci
Há já três lustros que estudo
Aprender, aprendi tudo,
Mas tudo desaprendi
*
Perdi o nome às estrelas,
Aos nossos rios e aos de fora
Confundo fauna com flora
Atrapalham-me as parcelas
*
Mas passo dias inteiros
A ver o rio a passar
Com aves e ondas do mar
Tenho amores verdadeiros
*
Rebrilha sempre uma estrela
Por sobre o meu parapeito
Pois não sou eu que me deito
Sem ter falado com ela
*
Conheço mais de mil flores
Elas conhecem-me a mim
Só não sei como em latim
As crismaram os doutores
*
Enquanto as aulas correrem
Não sentirei calafrios,
Que flores, aves e rios
Ignorante é que me querem


Natal dos simples

José Afonso

*

Vamos cantar as janeiras

Vamos cantar as janeiras

Por esses quintais a dentro vamos

Ás raparigas solteiras

*

Vamos cantar orvalhadas

Vamos cantar orvalhadas

Por esses quintais a dentro vamos

Ás raparigas casadas

*

Vira o vento e muda a sorte

Vira o vento e muda a sorte

Por aqueles olivais perdidos

Foi-se embora o vento norte

*

Muita neve cai na serra

Muita neve cai na serra

Só se lembra dos caminhos velhos

Quem tem saudades da terra

*

Quem tem a candeia acesa

Quem tem a cadeia acesa

Rabanadas pão e vinho novo

Matava a fome à pobreza

*

Já nos cansa esta lonjura

Já nos cansa esta lonjura

Só se lembra dos caminhos velhos

Quem anda à noite à procura


Naufrágio

Cecília Meireles
Alain Oulman
*
Pus o meu sonho num navio
E o navio em cima do mar
Depois abri o mar com as mãos
Para o meu sonho naufragar
*
Minhas mãos ainda estão molhadas
Do azul das ondas entreabertas
E a cor que escorre nos meus dedos
Colore as areias desertas
*
O vento vem, vindo de longe
A noite se curva de frio
Debaixo da água vai morrendo
Meu sonho dentro do navio
*
Chorarei quando for preciso
Para fazer com que o mar cresça
E o meu navio chegue ao fundo
E o meu sonho desapareça

Neblina (Moulin Rouge)

David Mourão-Ferreira

Auric / Larue

*

Ao ouvir na rua

Esta concertina

Dentro em mim flutua

Não sei que neblina

*

Fica tudo estranho

Nem consigo ver

Se dentro em mim tenho

Quem desejo ter

*

Agora sei porque senti

Cheio de névoa o coração

Eu duvidei amor de ti

Um dia ao som desta canção

*

E foi hoje ao som

Desta concertina

Que mais se adensou

Amor essa neblina

quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

Nega maluca

Fernando Lobo

Evaldo Rui

*

Tava jogando sinuca

Uma nega maluca me apareceu

Vinha com um filho no colo

E dizia p'ro povo que o filho era meu

Não sinhô

*

Tome que o filho é seu

Não sinhô

Guarde o que Deus lhe deu

Não sinhô

*

Há tanta gente no mundo

Mas meu azar é profundo

Veja você, meu irmão

A bomba estourou na minha mão

*

Tudo acontece comigo

Eu, que nem sou do amor

Até parece castigo

Ou então influência da cor

Nem às paredes confesso

Max

Artur Ribeiro

Ferrer Trindade

*

Não queiras gostar de mim
Sem que eu te peça,
Nem me dês nada que ao fim
Eu não mereça
Vê se me deitas depois
Culpas no rosto
Isto é sincero
Porque não quero
Dar-te um desgosto

*

Refrão

*
De quem eu gosto
Nem às paredes confesso
E até aposto
Que não gosto de ninguém
Podes sorrir
Podes mentir
Podes chorar também
De quem eu gosto
Nem às paredes confesso

*

Quem sabe se te esqueci
Ou se te quero
Quem sabe até se é por ti
Por quem eu espero
Se eu gosto ou não afinal
Isso é comigo,
Mesmo que penses
Que me convences
Nada te digo

Ni la sota ni el caballo ( El rey con su corona )




No me quieras tanto


Yo tenía viente años
Y él me doblaba la edad
En mis seines había noche
Y en las suyas madrugada
Antes que yo lo pensara
Mi gusto estaba cumplido
Nada me faltaba con él,
Me quería con locura,
Con todos sus cinco sentidos
Yo me dejaba querer
Amor me pedía, como un pordiosero,
Y yo le clavaba,
Sin ver que sufría,
Cuchillos de acero
*
No me quieras tanto,
Ni llores por mi
No vale la pena
Que por mi cariño
Te pongas así
Yo no se quererte lo mismo que tú,
Ni pasar la vida pendiente y esclava
De esa esclavitud
No te pongas triste,
Sécate ese llanto
Hay que estar alegre
Mírame y aprende
No me quieras tanto
*
Con los años y la vida
Ha cambiado mi querer,
Y ahora busco de sus labios
Lo que entonces desprecié
Cegadita de cariño
Yo le ruego que me ampare,
Que me tenga caridad
Se lo pido de rodillas, por la Gloria de su madre
Y no me sirve de nada
Como una mendiga estoy a su puerta
Y con mis palabras mi pena castiga
Dejándome muerta
*
No me quieras tanto,
Ni llores por mi;
No vale la pena
Que por mi cariño
Te pongas así.
Por lo que más quieras,
Sécame esta llanto.
Maldigo la hora que yo a ti te dije:
¡No me quieras tanto!

No me tires indiré

José Palma

Ramón Perelló

Genaro Monreal Lacosta

*

Cuando ar mundo mi persona se asomó

En Jeré de la Frontera onde nasi

Me encontré com estas manos p’haser parmas

Esta cara y dos pinrreles p’a bailar er garrotin

*

Mu poquito, mu poquito

Una cosa que no es ná

Pero muchas la quisiera

Que tiren pá onde quieran que Dios no se la da

*

No me tires indiré, no me tires indiré

Que la cosa está tan clara como el sol

Ay olé, ay olé, ay olé

Se estoy majareta tu estás más que yo

*

No me tires indiré, no me tires indiré

Porque estoy yo muy jartita ya de ti

Ay olé, ay olé, ay olé

Que tienes la cara como un alcauci

*

Ay que te corten la vena del sueño

Los pies por er bigote y er cuello po los pies

No me tires indiré, que tu cuento s’acabao

Colorin, colorin. Colorao

*

Cuando a mi me bautizaron sucedió

Lo que nunca volverá ya a suceder

Que el aguita andaba escasa por entonces

Y la pila la llenaron com vinillo de Jeré

*

Ay mira primo, mira primo

Mira se seré cabal que por libro de registro

Pusieron p’ apuntar-me la capa er sacristán

*

No me tires indiré, no me tires indiré…


Noite de Santo António ( Grande Marcha de Lisboa 1950 )

Norberto Araújo

Raul Ferrão

*

Cá vai a marcha mais o meu par

Se o não trouxesse quem o havia de aturar

Não me digas sim, não me digas não

Negócios de amor, são sempre o que são

*

Já não há praça dos bailaricos

Tronos de luz, num altar de manjericos

Mas sem a Praça que foi da Figueira

A gente cá vai, quer queira ou não queira

*

Ó noite de Santo António

Ó Lisboa de encantar

De alcachofras a florir

De foguetes a estoirar

Enquanto os bairros cantarem

Enquanto houver arraias

Enquanto houver Santo António

Lisboa não morre mais

*

Lisboa é sempre namoradeira

Tantos derriços, que até já fazem fileira

Não me digas sim, não me digas não

Amar é destino, cantar é condão

*

Uma cantiga, uma aguarela

Um cravo aberto, debruçado da janela

Lisboa linda, do meu bairro antigo

Dá-me o teu bracinho, vem bailar comigo


Nome de rua

David Mourão-Ferreira

Alain Oulman

*

Deste-me um nome de rua

Duma rua de Lisboa

Muito mais nome de rua

Do que nome de pessoa

Um desses nomes de rua

Que são nomes de canoa

*

Nome de rua quieta

Onde à noite ninguém passa

Onde o ciúme é uma seta

Onde o amor é uma taça

Nome de rua secreta

Onde à noite ninguém passa

Onde a sombra do poeta

De repente nos abraça

*

Com um pouco de amargura

Com muito da Madragoa

Com a ruga de quem procura

E o riso de quem perdoa

Deste-me um nome de rua

Duma rua de Lisboa


Nós as meninhas

Pêro de Viviãez

Alain Oulman

*

Pois nossas madres van a San Simon

De Val de Prados candeas queimar

Nós, as meninhas, ponhemos de andar

Con nossas madres e elas enton

E elas enton e elas enton

Queimen candeas, por nós e por si

E nós meninhas e nós meninhas

Bailaremos i

*

Nossos amigos todos lá irán

Por nos veer e andaremos nós

Bailando ante eles, fremosas en cós

E nossas madres, pois que alá van

Pois que alá van, pois que alá van

Queimen candeias por nós e por si

E nós meninhas e nós meninhas

Bailaremos i

*

Nossos amigos irán por cousir

Como bailamos e podem veer

Bailar moças de bon parecer

E nossas madres pois lá queren ir

Lá queren ir, lá querem ir

Queimen candeas por nós e por si

E nós meninhas e nós meninhas

Bailaremos i


Nós atrás das moças

Nós atrás das moças,

Elas aos saltinhos

Nós atrás das moças,

Elas aos saltinhos

Ai Jesus, que eu já não posso,

Com tantos carinhos

Ai Jesus, que eu já não posso,

Com tantos carinhos

*

Dançai raparigas

Dançai ó formosas

Dançai raparigas

Dançai ó formosas

Oh que linda é esta roda

De botões de rosas

Oh que linda é esta roda

De botões de rosas

Nostalgia ( É noite na Mouraria )

António Mestre

José Maria Rodrigues

*

Uma guitarra baixinho

Numa viela sombria

Entoa um fado velhinho

É noite na Mouraria

Apita um barco no Tejo

Na rua passa um rufia

Em cada boca há um beijo

É noite na Mouraria

*

Tudo é Fado

Tudo é vida

Tudo é amor sem guarida

Dor, sentimento, alegria

Tudo é Fado

Tudo é sorte

Retalhos de vida e morte

É noite na Mouraria

quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

Ó ai ó linda

Amália Rodrigues

*

Ó ai ó linda

‘inda agora aqui cheguei

‘inda agora aqui cheguei

Já me mandaram cantar

Ó ai ó linda

Sou criada de servir

Sou criada de servir

Não me posso demorar

*

Ó ai ó linda

Cheguei mesmo agora aqui

Cheguei mesmo agora aqui

Mas tenho que trabalhar

Ó ai ó lindinha

Agora que já te vi

Agora que já te vi

Sei que terei de voltar

*

Ó ai ó linda

Dá-me um raminho de salsa

Dá-me um raminho de salsa

Raminho de salsa crua

Ó ai lindinha

Se me queres ver descalça

Se me queres ver descalça

Passa lá na minha rua

*

Ó ai ó linda

Cantigas que já cantei

Cantigas que já cantei

E gostava de cantar

Ó ai lindinha

Agora que já chorei

Agora que já chorei

Até gosto de chorar

*

Ó ai ó linda

Não é contigo é c’o aquela

À semana de sapatos

Ao Domingo de chinela

*

Ó ai ó linda

Não é contigo é c’o aquela

À semana de sapatos

Ao Domingo de chinela


O carapau e a sardinha

António Avelar Pinho

Nuno Rodrigues

*

De uma sardinha fresquinha

Diga-me lá, quem não gosta?

Salpicadinha

Viva da costa

Assim fresquinha

Chegadinha de Cascais

Prateadinha

De comer, chorar por mais

*

Quem é que não gosta?

Quem é que não gosta?

De uma sardinha

Salpicadinha da costa

*

Quem é que não gosta?

Quem é que não gosta?

De uma sardinha

Salpicadinha da costa

*

Quando se ouve o pregão

Vê-se logo a mesa posta

Comer à mão

Como se gosta

*

Muito gordinha

No pão saloio a pingar

Uma “buchinha”

P’ra sardinha não queimar

*

Quem é que não gosta?

Quem é que não gosta?

De uma sardinha

Salpicadinha da costa

*

Quem é que não gosta?

Quem é que não gosta?

De uma sardinha

Salpicadinha da costa

*

Juntei uma petinguinha

Com um lindo “jaquinzinho”

Ela assadinha

Ele fritinho

O casamento

Naquele dia se fez

Foi o padrinho

O “verdinho” português

*

Quem é que não gosta?

Quem é que não gosta?

De uma sardinha

Salpicadinha da costa

*

Quem é que não gosta?

Quem é que não gosta?

De uma sardinha

Salpicadinha da costa

*

O carapau e a sardinha

Qual é o mais popular?

É a sardinha

Não há que errar

*

Dos “jaquinzinhos”

Bem fritinhos, gosto eu

Mas a sardinha

É um petisco do céu

*

Quem é que não gosta?...

Ó careca

Guilherme Pereira

Joaquim Bernardo do Nascimento

Raul Lourenço da Câmara

*

Esta moda nova

De andar sem chapéu

Faço um figurão

Com a cabeça ao léu


Mas se a moda pega
Tenho que aturar
Esta cegarrega
Que é de arreliar

Ó careca
Ó careca
Tira a boina
Que é moda andar em cabelo
Com a breca
Tira a tampa da careca
Que a careca não tem pelo

O cochicho

Lino Ferreir